quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

O Mundo Está Complicado...e o que fazer?

O mundo está muito complicado. Crianças de 10 a 18 anos estão difundindo imagens e vídeos de violações infantis, estão promovendo matanças ou cometendo suicídio on line, existem milhares de seguidores, achando isso legal, divertido, uma brincadeira.





Essas crianças foram os bebes que as mães aninharam, ajudaram a andar, choraram no primeiro dia da escola, escreveram cartinhas para o papai noel e deixaram seus dentinhos para a fada dos dentes. Sim, porque nenhuma dessas crianças é um alien. São nossas crianças. Frutos de uma sociedade doente.



As pessoas discutem quem tem responsabilidade, governo com suas cartilhas explicativas, escolas que não orientam, pais permissivos, igrejas alienantes, enquanto isso vivenciamos diariamente guerra de gêneros, guerras por partidos políticos, por times de futebol, impunidade em todas as esferas. Famílias robôs, trabalhando para consumir, ostentar, fazendo de conta que as fotos do facebook ou do álbum de férias, relatam a felicidade plena.

A questão já não é mais quem é o culpado. A questão é como salvar essa humanidade que vive momentos de falência múltipla. A sociedade está com câncer instalado em órgãos vitais e não se dá conta da gravidade. O que podemos fazer para que nossos filhos podem conseguir terminar a escola sem conhecer nenhum assassino on line, sem serem violados, sequestrados, podem conseguir um bom emprego, serem cidadões de bem, responsáveis, seguir uma boa carreira, terem filhos e uma vida normal?

Em que momento erramos? Há quem aposte na superproteção, que gera jovens medrosos, rebeldes, intolerantes a frustração, que buscam grupos que acham que matar um professor por dar zero é aceitável. Há quem aposte na cultura “filhos felizes” que os torna míopes para a realidade, mimados e que buscam a cultura do prazer fácil e ilimitado. Há quem culpe os meios de comunicação por expor um mundo infinito, cheio de pornografia, informações duvidosas, as redes sociais, onde o mundo é colorido e perfeito.

A web nos apresenta um mundo infinito, onde as pessoas podem aprender a tocar um instrumento, falar um idioma, conhecer toda história do mundo, das tecnologias e ciências. Filhos felizes deveriam criar um mundo mais feliz, e a superproteção não seria necessária se o mundo fosse tão feio.


O mundo está complicado, mas também é um lugar bonito. Existem jovens que são capazes de se superar, mas os olhos não estão neles. Porque não podemos falar, expor, aclamar os jovens maravilhosos, que existem aos montes, que cuidam dos seus amigos, são amáveis com seus pais, avós e irmãos. Os jovens que fazem trabalho voluntário, que levantam fundos para poços na África ou para ONGs de animais. Jovens que tem responsabilidade social, ambiental, que querem se superar, jovens atletas, cientistas, escritores, poetas? Onde foi que a sociedade acertou com eles? Será que também não foram superprotegidos, criados para serem felizes, tiveram acesso à web?

A diferença está nos valores. Podemos cuidar, amar, mostrar o mundo para eles, mas não podemos esquecer das escolhas, da lei da ação e reação, universal em qualquer religião e também entre os ateus e agnósticos, a única coisa que é certa é que cada ação tem uma consequência, inclusive a nossa de pais, avós, tios, educadores, sociedade. Nosso exemplo, mais que nossas palavras. Empatia se aprende, se absorve, bem como bons hábitos, boas ações.



Saiamos da tela e olhemos no espelho, veja o que ele reflete e como você reflete a sociedade. Que tipo de pessoa você quer ser? Que tipo de jovem você quer inspirar?


Fabiana Giannotti, brasileira radicada no México desde 2008.. Adoro escrever, conversar, fazer novos amigos, viajar. Me considero afortunada por viver no México, aprender a respeitar e conhecer essa bela cultura. Conhecer, adaptar-se, aprender, mudar, acostumar, respeitar, amar o diferente são algumas coisas que descobri nos últimos anos, além do fato que, por mais perfeito que seja o plano tudo pode mudar de repente...

Colunista e parceira no blog: viviendoenelmexicomagico.blogspot.mx/


segunda-feira, 22 de junho de 2015

Sentido de Humanidade perdido






Foto de um Policial Distraindo uma criança após um acidente de carro que matou seu pai se torna viral.

https://br.noticias.yahoo.com/blogs/super-incr%C3%ADvel/foto-de-policial-distraindo-crian%C3%A7a-ap%C3%B3s-acidente-que-matou-seu-pai-comove-internautas-184444589.html


Não consigo compreender porque as pessoas se emocionam com o fato do policial fazer o que nada mais é do que um ato de humanidade. Qualquer ser humano capaz de sentir um mínimo de solidariedade e compaixão faria isso. Em que momento as características básicas de humanidade se tornaram tão surpreendentes?

Se as pessoas estivessem comovidas com a situação da pequena criança que estará órfã de pai, ou da mãe que foi socorrida com ferimentos e teve que deixar filhos pequenos no local, eu poderia compreender, pois foi uma tragédia e é triste pensar na dor dessa família. Mas comover-se profundamente com um simples ato de humanidade e admitir que a maioria dos policiais não seriam capazes de fazer isso. Será que isso é verdade? Eu venho de uma família de policiais e digo que não. Eu acho que uma porcentagem mínima de policiais, assistentes sociais, peritos, bombeiros, equipes de primeiros socorros, repórteres, transeuntes seria tão insensível a ponto de não atender uma criança pequena afastando-a dos escombros perigosos e do corpo inerte e ferido do pai. E aposto que a maioria delas o faria porque estariam ocupados com algo e não veriam a prioridade.

Porque as pessoas esperam o pior das demais? Porque partimos do princípio que a humanidade está perdida nas pessoas? No momento que alertamos nossos filhos que pessoas más podem roubar-nos, assaltar? No momento que deixamos de cumprimentar ao vizinho, ao gari que varre nossas calcadas, que deixamos de olhar o mendigo que está ao lado. Que aprendemos a fechar portas, colocar grades nas janelas, colocar cinto de segurança, virar o rosto para tudo que é feio, imoral? Muitas vezes vamos a igreja, falamos de valores cristãos e não olhamos para a caixa do supermercado que trabalha como um robô bem na nossa frente. Que estamos ensinando a nossos filhos? Que valores passamos geração após geração quando vemos as desgraças do mundo e nos tornamos imunes a tanta dor ao nosso redor? Eu acho que deixamos de acreditar na humanidade de um policial porque nos acostumamos a tirar a humanidade das pessoas. Eh mais fácil encaixar o menor delinquente nas estatísticas, enquadrar o policial no estereótipo frio ou corrupto, fazer de conta que não vemos as diferenças sociais.

Uma vez minha mãe foi assaltada por um garoto e deu dinheiro para ele, mas também olhou nos seus olhos e conversou com ele. Viu o ser humano assustado atrás daquela arma, o menino perdido. E chorou por ele. Não chorou pelo seu dinheiro roubado, mas pela alma daquela criança. Ela não mudou o destino dele quando conversou com ele, mas mostrou a ele que era um ser humano e o viu no mesmo status. Exatamente como esse policial, é humano e tratou a menininha como ser humano, e seguramente deve ter chorado pela orfandade precoce da pequena. Acho que deveríamos fazer um movimento em favor da humanidade perdida. De parar, tirar as mãos do smartphone ou do Ipad e olhar nos olhos das pessoas ao nosso redor. Não podemos tirar o mendigo da rua, mas podemos oferecer um sanduiche, um café, um cobertor. Aliás lembro que minha mãe também fazia isso pelo mendigo que vivia perto da nossa casa. Podemos olhar nos olhos das pessoas e mostrar que as vemos. Em um mundo onde as pessoas e suas necessidades estão invisíveis as vezes um olhar, um gesto de amabilidade real e sincera pode mudar o curso da história de uma pessoa. Da mesma forma podemos olhar nos olhos do médico que nos trata como uma ficha de papel e aprendeu a não olhar nos olhos de um paciente, ou mesmo toca-lo, podemos olhar nos olhos do servidor público embrutecido com a burocracia e dizer, oi, sou uma pessoa e não um número ou uma ficha, tudo bem com você? Com um sorriso nos olhos e gentileza na voz, e não com a indignação daquele que está acostumado a ser servido.

Como mãe acho que temos obrigação de fazer isso. Assim como minha mãe me ensinou com seu exemplo de ser humano, policial e mulher pretendo ensinar aos meus filhos. Mas me vejo muitas vezes atuando de forma automatizada, organizada e desumana com meu semelhante. É hora de mudar isso.

 
 


Não consigo compreender porque as pessoas se emocionam com o fato do policial fazer o que nada mais é do que um ato de humanidade. Qualquer ser humano capaz de sentir um mínimo de solidariedade e compaixão faria isso. Em que momento as características básicas de humanidade se tornaram tão surpreendentes?

Se as pessoas estivessem comovidas com a situação da pequena criança que estará órfã de pai, ou da mãe que foi socorrida com ferimentos e teve que deixar filhos pequenos no local, eu poderia compreender, pois foi uma tragédia e é triste pensar na dor dessa família. Mas comover-se profundamente com um simples ato de humanidade e admitir que a maioria dos policiais não seriam capazes de fazer isso. Será que isso é verdade? Eu venho de uma família de policiais e digo que não. Eu acho que uma porcentagem mínima de policiais, assistentes sociais, peritos, bombeiros, equipes de primeiros socorros, repórteres, transeuntes seria tão insensível a ponto de não atender uma criança pequena afastando-a dos escombros perigosos e do corpo inerte e ferido do pai. E aposto que a maioria delas o faria porque estariam ocupados com algo e não veriam a prioridade.

Porque as pessoas esperam o pior das demais? Porque partimos do princípio que a humanidade está perdida nas pessoas? No momento que alertamos nossos filhos que pessoas más podem roubar-nos, assaltar? No momento que deixamos de cumprimentar ao vizinho, ao gari que varre nossas calcadas, que deixamos de olhar o mendigo que está ao lado. Que aprendemos a fechar portas, colocar grades nas janelas, colocar cinto de segurança, virar o rosto para tudo que é feio, imoral? Muitas vezes vamos a igreja, falamos de valores cristãos e não olhamos para a caixa do supermercado que trabalha como um robô bem na nossa frente. Que estamos ensinando a nossos filhos? Que valores passamos geração após geração quando vemos as desgraças do mundo e nos tornamos imunes a tanta dor ao nosso redor? Eu acho que deixamos de acreditar na humanidade de um policial porque nos acostumamos a tirar a humanidade das pessoas. Eh mais fácil encaixar o menor delinquente nas estatísticas, enquadrar o policial no estereótipo frio ou corrupto, fazer de conta que não vemos as diferenças sociais.

Uma vez minha mãe foi assaltada por um garoto e deu dinheiro para ele, mas também olhou nos seus olhos e conversou com ele. Viu o ser humano assustado atrás daquela arma, o menino perdido. E chorou por ele. Não chorou pelo seu dinheiro roubado, mas pela alma daquela criança. Ela não mudou o destino dele quando conversou com ele, mas mostrou a ele que era um ser humano e o viu no mesmo status. Exatamente como esse policial, é humano e tratou a menininha como ser humano, e seguramente deve ter chorado pela orfandade precoce da pequena. Acho que deveríamos fazer um movimento em favor da humanidade perdida. De parar, tirar as mãos do smartphone ou do Ipad e olhar nos olhos das pessoas ao nosso redor. Não podemos tirar o mendigo da rua, mas podemos oferecer um sanduiche, um café, um cobertor. Aliás lembro que minha mãe também fazia isso pelo mendigo que vivia perto da nossa casa. Podemos olhar nos olhos das pessoas e mostrar que as vemos. Em um mundo onde as pessoas e suas necessidades estão invisíveis as vezes um olhar, um gesto de amabilidade real e sincera pode mudar o curso da história de uma pessoa. Da mesma forma podemos olhar nos olhos do médico que nos trata como uma ficha de papel e aprendeu a não olhar nos olhos de um paciente, ou mesmo toca-lo, podemos olhar nos olhos do servidor público embrutecido com a burocracia e dizer, oi, sou uma pessoa e não um número ou uma ficha, tudo bem com você? Com um sorriso nos olhos e gentileza na voz, e não com a indignação daquele que está acostumado a ser servido.

Como mãe acho que temos obrigação de fazer isso. Assim como minha mãe me ensinou com seu exemplo de ser humano, policial e mulher pretendo ensinar aos meus filhos. Mas me vejo muitas vezes atuando de forma automatizada, organizada e desumana com meu semelhante. É hora de mudar isso.

 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015


REMEDIO RUIM

 

No passado remédio era ruim, não tinha sabor cereja, morango ou tutti frutti para ficar gostoso e facilitar a vida. A criança que ficava doente tinha que encarar remédio ruim. Ninguém precisava explicar muitas vezes que excessos de doces seriam consertados com uma colher bem amarga. Na verdade não haviam excessos... nem de doces, nem de fast food, nem de programas de tv, nem de brinquedos. Não havia quase opção e todos eram felizes com o que havia. Naquela época mertiolate doía, e muito. E apesar de preferir ficar com o joelho ralado a ter que encarar o ardor jamais nos foi dada opção. A vida da criança não era facilitada. E desde de pequenos aprendemos a encarar a dor e o gosto ruim de um remédio amargo. Aprendemos a esperar 12 meses pelo brinquedo que queríamos (e não surgiam 5000 outros brinquedos que queríamos muito nesse meio tempo) e ir no cinema, Mc Donalds ou comer uma pizza em ocasiões muito especiais. Esperávamos por esses momentos e o revivíamos mil vezes depois, como recordações ultra especiais. Nossos pais não brincavam com a gente, ok, talvez eventualmente o pai jogasse bola com os filhos e a mãe costurasse roupas para as bonecas com restos de retalho ou lesse uma historia, mas essa coisa de que os pais são responsáveis por distrair, entreter, fazer feliz a sua criatura a qualquer custo, mesmo que esteja exausto depois de uma jornada semi escrava de um mercado de trabalho ultra competitivo, após dirigir horas em um engarrafamento em qualquer metrópole do mundo. E as crianças se distraiam e brincavam com seus poucos brinquedos, imaginação, irmãos. Criavam fortes no quintal ou clube com lençóis em noites de chuva. E criavam regras e novas brincadeiras.

Na escola não era muito diferente, a vida da criança tampouco era facilitada. Não existiam materiais coloridos, internet, música. Cantava-se o Hino Nacional, sentava-se em uma cadeira de madeira desconfortável e se trabalhava. Na hora do recreio sempre foi meio a lei da selva, os mais fortes ganham dos mais fracos, e a única opção que havia era aprender a ser forte. Ao menos não haviam redes sociais para mostrar para todo o mundo seus erros e fracassos ou alardear o popular que alguém podia ser. Você ganhava status pela sua personalidade e não por golpe de marketing.  A escola foi duríssima para algumas crianças, que aprenderam a superar o estigma de looser, Nerd e conquistaram o mundo empregando os populares no futuro. A lição de casa era feita com enciclopédias, a criança era obrigada a escrever, escrever e escrever. E o professor tinha sempre razão

Não havia o conceito de que a criança tinha que ser feliz. Não era uma obrigação ser feliz. As vezes eram outras não. E os pais entendiam isso como parte da vida, porque é parte da vida. Não acordamos felizes todos os dias. Não estamos felizes o dia todo de nenhum dia de nossas vidas. Hoje um dia o pai que não matricula o filho na melhor escola, que não compra o melhor brinquedo que existe, que não pode levar o filho em todas atividades que possam fazer, cujo filho não seja o mais bonito/inteligente/popular, cujo filho tem problemas em adaptar-se aos amigos da escola, a matemáticas, a ser um bom esportista se sente um perdedor, sente-se esmagado por uma culpa devastadora, sente que deveria trabalhar mais, para comprar mais e fazer mais feliz ao filho. Ou sente que deveria trabalhar menos para ter mais tempo para poder dedicar-se, mas como fazer isso e comprar o novo IPAD que é tudo que seu rebento sempre sonhou?

Estamos criando a geração mais imatura, incapaz de lidar com frustrações e infeliz de todos os tempos.  A simples pressão por ser feliz, ter sucesso e ser popular é motivo para infelicitar a qualquer um. Não queremos que nossos filhos sofram com remédios amargos, não queremos que suas feridas doam para cicatrizar, não queremos que tenham menos oportunidades que os demais. Criamos um exército de crianças bem educadas, bem vestidas, que possuem todas as ferramentas necessárias para criar uma nova teoria da relatividade ou a cura da velhice e tudo que eles querem é fugir. Fugir para o mundo virtual, colorido e indolor dos videogames, para a mentira plástica das redes sociais. E quando querem sentir-se vivos se afundam nos excessos...roupas, brinquedos, comida, mais tarde drogas ou sexo. Qualquer coisa que possa atender à necessidade obrigatória de ser feliz.

Somos a primeira geração de pais que tem todas as ferramentas ao alcance do cartão de credito para suprimir toda e qualquer dor e angustia momentânea, somos a primeira geração de pais obrigados a criar seres humanos perfeitos e felizes, carregamos uma culpa infinita e sempre temos a sensação de estarmos falhando em algo. Temos que ensinar nossos filhos que a dor de barriga se cura com remédio gostoso, o ralado sara com antisséptico indolor, mas fracassar tem um sabor amargo que deve ser tragado e evitado através do esforço individual, temos que vê-los falhar e suportar a vontade de pegá-los no colo e dizer que está tudo bem, porque eles são o príncipe/princesa da mamãe e não tem problema se não conseguir. Tem problemas, eles jamais aprenderão a superar o fracasso se não o viverem, eles não serão especiais e maravilhosos ao mundo, só por terem nascido. O coração deles tem que sangrar as vezes e não tem remédio indolor para isso, é parte da vida e ser feliz apesar disso é o que nos torna capazes de viver e criar uma vida que valha a pena.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Voltando a Ativa

Após 5 anos de trabalhos eventuais, dentro de casa, com poucos riscos - sem contar, claro, a roda-viva doméstica que nos esgota mas não é considerada trabalho, rs. - coloquei os pés em uma empresa de novo.

Estava buscando a bastante tempo, e quando a escola de idiomas me chamou para trabalhar em uma empresa, chequei horários e localização, qual não foi minha surpresa ao ver que poderia enfim coincidir meu horario com o do meu esposo, inclusive porque, dentre todas as possíveis, coincidencias o trabalho era justamente na empresa onde ele trabalha, entre todas empresas que existem no México.

A sensação de voltar a trabalhar, entrar em uma empresa, observar a decoração moderna das instalações, as vestimentas das pessoas, lidar com clientes, maquiar-se, arrumar-se, sair de casa, dirigir até o trabalho, eram rotinas tão distantes, que não fazia idéia de quanto estava desacostumada.

Deixar meus filhotes em casa foi infinitamente menos difícil do que imaginava e a sensação de regresar foi muito melhor. Preparar as aulas, lidar com os alunos, sentir o medo do desconhecido, da rejeição do primeiro dia, a dor de barriga que antecipou tudo isso, valeu a pena.

Claro que tudo isso só é tão satisfatório porque posso me dar ao luxo de trabalhar poucas horas por dia, nem todos os días e seguir me dedicando aos meus pequenos, haver começado enquanto as crianças estão de férias e com minha mãe em caminho é apenas mais um fator que me torna grata por tudo.

Parece que enfim as oportunidades estão surgindo e quero vive-las o máximo possível. Não é todo dia que  universo nos permite realizar tudo ao mesmo tempo agora.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Vontade de mudar?

Retrospectiva 2008 - 2013

Essa semana fechamos um ciclo nas nossas vidas. O ultimo exame que fizemos comprovou que a cirurgia de vias urinárias do meu filho foi um sucesso. Ainda temos acompanhamentos que fazer, mas o medo de encarar uma 4º cirurgia e toda a odisseia que isso acompanha, emocionais, psicológicos e financeiros, ficou para trás. Nos últimos 2 anos estivemos tão envolvidos com esses problemas que sentimos que nossa vida de forma geral esteve em suspenso.

Não é fácil ver seu filho sofrer, saber que possui um problema de saúde sério e submete-lo a cirurgias. É ainda mais difícil quando se vive isso tudo em um país distante, sem apoio da família ou do plano de saúde. Sei se paga uma atrocidade de plano de saúde no Brasil e muitas vezes ainda temos que buscar um médico fora do convenio para ter um atendimento melhor, mas há menos surpresas. Nossos gastos, com médicos, exames etc, dava para comprar uns 2 carros, ainda que contando com seguro médico de gastos maiores. Mas não há dinheiro no mundo que pague pela saúde, então faríamos tudo de novo. Estou a 3 anos sem ir ao Brasil e não sei quando irei de novo. Agora é hora de abrir o peito, respirar aliviados e fazer planos de novo.

Não descartamos a ideia de voltar ao Brasil definitivamente, embora a probabilidade a curto prazo seja mínima. Pensamos em nos fixar um tempo no México ou mudar a outro país. Como? Para onde? Quem sabe? Hehe. A idéia é lançar os desejos ao Universo e esperar que Ele se encargue do como. Para onde seria bom ter uma idéia, só para ajudar.

Minha mãe esta com planos de vir a viver no México, alugar seu apto e viver pertinho da gente. Isso nos dá vontade de criar raízes, ter uma mãe e vó por perto facilita tudo, coração, sentimentos, logística de vida. Buscando ideias de lugares para ela, nos lembramos de como foi vir viver aqui e de todo o custo emocional e de adaptação.

Viemos para cá 1 mês antes do Natal. Chorava passeando pelos corredores dos shoppings escutando musicas natalinas e passando o primeiro Natal longe da minha gente. Reclamávamos de tudo, dos serviços, comida, falta disso e daquilo. Não sei como consegui fazer amigos mexicanos, esse povo é muito lindo como dizem por aqui. E conheci muita gente linda mesmo. Quando engravidei em meio a gripe suína, com menos de 6 meses vivendo aqui, foram essas pessoas queridas que me ajudaram a seguir adiante e não enlouquecer. Me deram carinho, apoio, recomendações. Jamais esquecerei da Paty me ligando dizendo que eu TINHA  que ir na obstetra dela, e que tinha muita pena de me ver sozinha nessa hora. E eu TINHA mesmo, valeu a pena cruzar a cidade e conhecer sua médica, uma pessoa linda que facilitou muito minha segunda gravidez e o fato de encararmos uma maternidade com a sala de espera vazia. Obrigada Paty e dra. Graciela.

Passada a gripe suína, gravidez, nascimento da minha princesa e primeira infância do meu filho, jamais vivemos tranquilamente no México, não sei se é porque meu marido e eu somos muito inquietos ou azarados, mas nos mudamos 6 vezes nos últimos 4 anos - e ainda temos coragem de pensar em mais mudanças. Após vivermos no hotel e nos mudarmos a um belo apto percebemos que nos equivocamos na primeira escolha, transito, custos, poluição nos fizeram mudar do primeiro apto para uma casa. Chegando na casa descubro a gravidez,  a parte da adaptação a nova vida, vivemos 2 anos nessa casa. Depois mudanças no local de trabalho nos fizeram mudar de zona e cidade. Nova adaptação, novo mundo de novo. Apesar da nova casa na nova cidade ser bem localizada tivemos o azar de sermos roubados duas vezes dentro de um condomínio fechado. Coisas da vida e maré brava, onde em 6 meses tivemos 2 cartões clonados, carteira roubada e 2 roubos a residência. Prejuízo, decepção, temor, nova mudança. Pertinho do Natal - já com arvore montada e tudo - mudamos de novo. Depois de apenas 9 meses o dono da casa decide vende-la e tivemos que mudar de novo, dessa vez já tinha enfeites de Haloween montados. Vontade de comprar casa só para parar de mudar. Isso tudo ocorreu nos últimos 2 anos e coincidindo com tantas mudanças e dramas pessoais vivemos os problemas de saúde do meu filhote. Não foi bolinho não.

Nessas horas em retrospectiva sabemos que somos adaptáveis e flexíveis. Podemos mudar mil vezes e ainda assim manter nossa essência. Sempre encontraremos pessoas maravilhosas que nos ajudarão. Hoje quando vejo um brasileiro recém chegado tenho peninha de toda adaptação que terá que sofrer, minha mae depois de tantas idas e vindas e com a gente por perto, espero que muito menos, estaremos aqui para cada passo que ela der, cada panela que tenha que comprar. Mas mesmo minha mae que já é quase uma cidadã mexicana após vir para cá umas 5 ou 6 vezes - perdi as contas - aprenderá a viver em solo estranho e vai curtir isso. Vai aprender a desfrutar os sabores que não gostava, a conhecer e não comparar, formas de ser e de viver, e vai encontrar em alguns aspectos valores culturais muitos superiores aos seus e em outros vai valorizar para sempre nossa terra amada Brasil com todos seus defeitos terríveis.

As vezes nos perguntamos se não vale a pena sossegar o facho e assentar aqui mesmo por enquanto. Pode ser que sim, pode ser que não. O tempo e oportunidades que surjam nos dirão. Mas se houver mudança, acho que teremos coragem de encarar de novo. Menos ingênuos e muito mais fortes. Seja o que o Arquiteto Divino decida, que seja para o melhor, sempre.



sexta-feira, 3 de maio de 2013

Vontando ao cenário e logo saindo de cena.

Até que ponto devemos ajudar nossos filhos em seus projetos? Até que ponto devemos "pegar pela mão" e em que ponto devemos ir para os bastidores?

Recentemente meu filho, na primeira série do primário, resolveu que queria escrever um conto. Inventou um super herói que é uma mistura de Batman com sei-lá-o-que e não sabia como escrever. Durante o tempo que ficou internado, com soro na mão e muito desconforto pelas sondas o convenci a me contar a história e eu fui escrevendo, a ideia era dele, as preposições, estruturas verbais e pronomes eram meus. O resultado final foi uma história claramente escrita por uma criança de 7anos e todo seu mundo de infinita imaginação, um menininho felicíssimo com seu próprio logro.

Semana passada foi sua estréia, assim como de sua irmãzinha de 3 anos em uma feira de ciências. O professor, um biólogo, fez um projeto bacana, compramos tartarugas e coisas para cuidá-las, em uma equipe e as crianças aprenderam a cuidá-las, pesar, medir, alimentar e limpar, fazendo um projeto científico onde as crianças deveriam avaliar que alimento era melhor para as tartarugas. Tudo isso supervisionado pelo professor em um laboratório e registrado pelos pequenos. Para eles não era um projeto cientifico, e sim parte de suas tarefas escolares. Logo deveriam fazer uma apresentação, em inglês, com imagens e demonstração na feira de ciências. No caso da minha filha menor tínhamos que buscar um projeto sobre cores, fazer uma apresentação e cartaz. Obviamente muito trabalho para os pais.

Sempre fui contra escolas que ficam passando muita "lição de casa para pais". Quando me envolvi no projeto das tartarugas, me reunindo com pais nas manhãs para discutir e preparar a apresentação me dei conta de que esse envolvimento estimula a criança. Pude ajudar a prepara-lo, compreender e fazer uma bonita apresentação. Todo pai e mãe deseja que seu filho se dedique com entusiasmo a escola e espera que isso brote única e exclusivamente em função da escola. As vezes professores comprometidos e dedicados conseguem despertar uma paixão por química, biologia, matemáticas ou literatura, mas na maioria das vezes o que ocorre é o contrário. Professores cansados e automatizados se supõe que ensinam e os alunos fingem que aprendem.

Não sei se meu filho será um cientista, matemático, artista ou advogado. Certamente não tem veia para biologia, rs, uma vez que era o único do grupo que não queria tocar nas tartarugas, mas nesse período esteve buscando informações em livros de pesquisa sobre os animais e adora compreender sobre eles, como vivem, seus habitats, forma de alimentar-se. Se interessa em pesquisar, em aprender.

Essa semana começamos um projeto de teatro, dá-lhe mais pesquisas e estímulos a imaginação. Resisto a tentação de buscar algo pronto googleando e me sento com meu filho. Voltando as responsabilidades escolares depois de tanto tempo...mas pouco a pouco vou saindo de cena e deixando meu pequeno ser o ator principal. E escritor, cientista, musico e o que mais deseje sonhar.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Ser mãe no México.

Qual a diferença entre ser mãe no Brasil e México? Mudou algo?

Me lembro que quando deixei a carreira que tinha no mercado corporativo, logo que meu filho completou 1 ano, justo no ponto em que estava começando a decolar e comecei uma carreira incipiente na área acadêmica, muitos me julgaram louca. Filho cresce e sua carreira não volta mais. Não há como regressar onde estava, depois de alguns anos estará velha para o mercado, foram alguns frases que escutei na época. No Brasil, mulheres da minha geração são consideradas loucas por deixar sua carreira e o preconceito por uma mulher jovem e produtiva optar por ser dona de casa é algo impressionante. A verdade é que uma mulher que tem filhos no Brasil pode ficar com seu filho por 6 meses, cumprir a amamentação básica e depois tem uma infinidade de opções de lugares para deixar seu bebê, só não há remédio para o vazio que se sente no coração depois que se volta ao escritório. Creio que algumas mulheres são afortunadas de se sentirem tão realizadas com seus trabalhos que equilibram melhor a equação, eu confesso que não era meu caso e mesmo o bom salário que recebia não compensava minha perda.

Aqui no México a cultura é bastante diferente. Logo que inscrevi meu filho no pré-kinder que seria o maternal do Brasil, conheci as mães de seus amiguinhos e TODAS sem exceção, eram profissionais bem sucedidas, algumas com mestrado e MBA, que havia deixado seus trabalhos para dedicarem-se a família depois que seus filhos nasceram. Na escola da minha filha metade das mulheres trabalham, a maioria em empresas familiares, apenas pelo período que as crianças estão na escola, poucas são as que trabalham em empresas. A grande maioria das mulheres que trabalham depois que os primeiros filhos nascem, desistem no segundo filho. A cultura aqui é mais machista, é certo, o homem ainda tem o papel de provedor, mas na classe baixa as mulheres trabalham sim e ajudam no orçamento doméstico, assim que é menos por machismo e mais por opção que as mulheres ficam em casa. A estrutura para mulheres que trabalham é complicada, de forma que se a mulher não é profissional liberal ou tenha uma ajudante doméstica de confiança ou família dando suporte é quase impossível trabalhar. Eu mesma fiz as contas, com 2 filhos, pagando tudo que cobram para o trabalho que eu realizo: transporte, lição de casa, cuidar das crianças, eu gastaria mais do que o salário médio que pagam a estrangeiros que oferecem serviços bilíngues.

Primeiro há que compreender que aqui a cultura é extremamente elitista. Escolher uma escola para um filho é uma tarefa que é realizada muitas vezes antes que a criança nasça. As melhores escolas - maioria bilíngues, algumas tri-lingues tem filas de anos de espera e para aprovação no materna, a família e criança são sujeitas a aprovação que envolve muito mais que um teste para identificar o nível que a criança vai estar, está ligada ao aporte financeiro e cultural da família. As melhores escolas tem um horário que vai das 7:30 a 9 de entrada  e saem entre 12 e 14:30 da tarde (dependendo da idade da criança), a maioria delas tem opção de atividades extracurriculares e tareas dirigidas (ajuda na lição de casa) cada uma dessas atividades muito bem pagas mas a maioria delas vai até as 17:00h, 18:00 máximo. Existem escolas integrais que são chamadas guarderias, as guarderias são escolas com nível de ensino inferior que os bons colégios e seu horário de saída está maximo18:00. Existem algumas escolas que atendem horários até mais tarde, particulares, mas de menor qualidade.

Os salários médios e custo de vida são cerca de 30% e 40% inferiores ao Brasil, respectivamente. As mulheres que ficam em casa, são responsáveis pela educação dos filhos, administração da casa, que deve ter sempre sua apresentação social impecável, recebem frequentemente e fazem malabarismos com o orçamento doméstico, porque em qualquer lugar um a menos trabalhando faz diferença. A questão básica aqui é que estar em casa é uma opção da família, pela família, em função de manter os valores familiares preservados.

As crianças são crianças por mais tempo, se vestem como crianças e agem como tal. As famílias vão a missa aos domingos e estão em família nos fins de semana. Os adolescentes viajam com os pais e tratam os mais velhos da família com respeito e cordialidade.

Aqui uma mulher que deixa seu trabalho pensa apenas na perda pessoal que será deixar de trabalhar e na perda financeira. Não há uma cobrança da sociedade para que siga com a carreira. Outro dia, uma amiga mexicana dava conselhos a outra que desejava deixar de trabalhar: quando se trabalha fora, desperdiçamos muito, gastamos em qualquer coisa. Quando se deixa de trabalhar nos organizamos, equilibramos, apertamos. No fim das contas nunca falta o necessário. As férias nem sempre são na Disney ou em Cancun, mas ainda assim são férias familiares. Temos menos supérfluos e mais necessidades básicas atendidas. E no fim das contas, o marido se esforça mais, afinal sua responsabilidade é maior e sua carreira na maioria das vezes deslancha depois da pressão inicial. Ela tem razão.

Então a resposta a minha pergunta inicial é sim. É diferente, estamos em opostos totalmente distintos.  Em minha opinião faz falta um meio termo nos dois lugares, quem sabe em algum momento ambos chegam lá...