segunda-feira, 22 de junho de 2015

Sentido de Humanidade perdido






Foto de um Policial Distraindo uma criança após um acidente de carro que matou seu pai se torna viral.

https://br.noticias.yahoo.com/blogs/super-incr%C3%ADvel/foto-de-policial-distraindo-crian%C3%A7a-ap%C3%B3s-acidente-que-matou-seu-pai-comove-internautas-184444589.html


Não consigo compreender porque as pessoas se emocionam com o fato do policial fazer o que nada mais é do que um ato de humanidade. Qualquer ser humano capaz de sentir um mínimo de solidariedade e compaixão faria isso. Em que momento as características básicas de humanidade se tornaram tão surpreendentes?

Se as pessoas estivessem comovidas com a situação da pequena criança que estará órfã de pai, ou da mãe que foi socorrida com ferimentos e teve que deixar filhos pequenos no local, eu poderia compreender, pois foi uma tragédia e é triste pensar na dor dessa família. Mas comover-se profundamente com um simples ato de humanidade e admitir que a maioria dos policiais não seriam capazes de fazer isso. Será que isso é verdade? Eu venho de uma família de policiais e digo que não. Eu acho que uma porcentagem mínima de policiais, assistentes sociais, peritos, bombeiros, equipes de primeiros socorros, repórteres, transeuntes seria tão insensível a ponto de não atender uma criança pequena afastando-a dos escombros perigosos e do corpo inerte e ferido do pai. E aposto que a maioria delas o faria porque estariam ocupados com algo e não veriam a prioridade.

Porque as pessoas esperam o pior das demais? Porque partimos do princípio que a humanidade está perdida nas pessoas? No momento que alertamos nossos filhos que pessoas más podem roubar-nos, assaltar? No momento que deixamos de cumprimentar ao vizinho, ao gari que varre nossas calcadas, que deixamos de olhar o mendigo que está ao lado. Que aprendemos a fechar portas, colocar grades nas janelas, colocar cinto de segurança, virar o rosto para tudo que é feio, imoral? Muitas vezes vamos a igreja, falamos de valores cristãos e não olhamos para a caixa do supermercado que trabalha como um robô bem na nossa frente. Que estamos ensinando a nossos filhos? Que valores passamos geração após geração quando vemos as desgraças do mundo e nos tornamos imunes a tanta dor ao nosso redor? Eu acho que deixamos de acreditar na humanidade de um policial porque nos acostumamos a tirar a humanidade das pessoas. Eh mais fácil encaixar o menor delinquente nas estatísticas, enquadrar o policial no estereótipo frio ou corrupto, fazer de conta que não vemos as diferenças sociais.

Uma vez minha mãe foi assaltada por um garoto e deu dinheiro para ele, mas também olhou nos seus olhos e conversou com ele. Viu o ser humano assustado atrás daquela arma, o menino perdido. E chorou por ele. Não chorou pelo seu dinheiro roubado, mas pela alma daquela criança. Ela não mudou o destino dele quando conversou com ele, mas mostrou a ele que era um ser humano e o viu no mesmo status. Exatamente como esse policial, é humano e tratou a menininha como ser humano, e seguramente deve ter chorado pela orfandade precoce da pequena. Acho que deveríamos fazer um movimento em favor da humanidade perdida. De parar, tirar as mãos do smartphone ou do Ipad e olhar nos olhos das pessoas ao nosso redor. Não podemos tirar o mendigo da rua, mas podemos oferecer um sanduiche, um café, um cobertor. Aliás lembro que minha mãe também fazia isso pelo mendigo que vivia perto da nossa casa. Podemos olhar nos olhos das pessoas e mostrar que as vemos. Em um mundo onde as pessoas e suas necessidades estão invisíveis as vezes um olhar, um gesto de amabilidade real e sincera pode mudar o curso da história de uma pessoa. Da mesma forma podemos olhar nos olhos do médico que nos trata como uma ficha de papel e aprendeu a não olhar nos olhos de um paciente, ou mesmo toca-lo, podemos olhar nos olhos do servidor público embrutecido com a burocracia e dizer, oi, sou uma pessoa e não um número ou uma ficha, tudo bem com você? Com um sorriso nos olhos e gentileza na voz, e não com a indignação daquele que está acostumado a ser servido.

Como mãe acho que temos obrigação de fazer isso. Assim como minha mãe me ensinou com seu exemplo de ser humano, policial e mulher pretendo ensinar aos meus filhos. Mas me vejo muitas vezes atuando de forma automatizada, organizada e desumana com meu semelhante. É hora de mudar isso.

 
 


Não consigo compreender porque as pessoas se emocionam com o fato do policial fazer o que nada mais é do que um ato de humanidade. Qualquer ser humano capaz de sentir um mínimo de solidariedade e compaixão faria isso. Em que momento as características básicas de humanidade se tornaram tão surpreendentes?

Se as pessoas estivessem comovidas com a situação da pequena criança que estará órfã de pai, ou da mãe que foi socorrida com ferimentos e teve que deixar filhos pequenos no local, eu poderia compreender, pois foi uma tragédia e é triste pensar na dor dessa família. Mas comover-se profundamente com um simples ato de humanidade e admitir que a maioria dos policiais não seriam capazes de fazer isso. Será que isso é verdade? Eu venho de uma família de policiais e digo que não. Eu acho que uma porcentagem mínima de policiais, assistentes sociais, peritos, bombeiros, equipes de primeiros socorros, repórteres, transeuntes seria tão insensível a ponto de não atender uma criança pequena afastando-a dos escombros perigosos e do corpo inerte e ferido do pai. E aposto que a maioria delas o faria porque estariam ocupados com algo e não veriam a prioridade.

Porque as pessoas esperam o pior das demais? Porque partimos do princípio que a humanidade está perdida nas pessoas? No momento que alertamos nossos filhos que pessoas más podem roubar-nos, assaltar? No momento que deixamos de cumprimentar ao vizinho, ao gari que varre nossas calcadas, que deixamos de olhar o mendigo que está ao lado. Que aprendemos a fechar portas, colocar grades nas janelas, colocar cinto de segurança, virar o rosto para tudo que é feio, imoral? Muitas vezes vamos a igreja, falamos de valores cristãos e não olhamos para a caixa do supermercado que trabalha como um robô bem na nossa frente. Que estamos ensinando a nossos filhos? Que valores passamos geração após geração quando vemos as desgraças do mundo e nos tornamos imunes a tanta dor ao nosso redor? Eu acho que deixamos de acreditar na humanidade de um policial porque nos acostumamos a tirar a humanidade das pessoas. Eh mais fácil encaixar o menor delinquente nas estatísticas, enquadrar o policial no estereótipo frio ou corrupto, fazer de conta que não vemos as diferenças sociais.

Uma vez minha mãe foi assaltada por um garoto e deu dinheiro para ele, mas também olhou nos seus olhos e conversou com ele. Viu o ser humano assustado atrás daquela arma, o menino perdido. E chorou por ele. Não chorou pelo seu dinheiro roubado, mas pela alma daquela criança. Ela não mudou o destino dele quando conversou com ele, mas mostrou a ele que era um ser humano e o viu no mesmo status. Exatamente como esse policial, é humano e tratou a menininha como ser humano, e seguramente deve ter chorado pela orfandade precoce da pequena. Acho que deveríamos fazer um movimento em favor da humanidade perdida. De parar, tirar as mãos do smartphone ou do Ipad e olhar nos olhos das pessoas ao nosso redor. Não podemos tirar o mendigo da rua, mas podemos oferecer um sanduiche, um café, um cobertor. Aliás lembro que minha mãe também fazia isso pelo mendigo que vivia perto da nossa casa. Podemos olhar nos olhos das pessoas e mostrar que as vemos. Em um mundo onde as pessoas e suas necessidades estão invisíveis as vezes um olhar, um gesto de amabilidade real e sincera pode mudar o curso da história de uma pessoa. Da mesma forma podemos olhar nos olhos do médico que nos trata como uma ficha de papel e aprendeu a não olhar nos olhos de um paciente, ou mesmo toca-lo, podemos olhar nos olhos do servidor público embrutecido com a burocracia e dizer, oi, sou uma pessoa e não um número ou uma ficha, tudo bem com você? Com um sorriso nos olhos e gentileza na voz, e não com a indignação daquele que está acostumado a ser servido.

Como mãe acho que temos obrigação de fazer isso. Assim como minha mãe me ensinou com seu exemplo de ser humano, policial e mulher pretendo ensinar aos meus filhos. Mas me vejo muitas vezes atuando de forma automatizada, organizada e desumana com meu semelhante. É hora de mudar isso.

 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015


REMEDIO RUIM

 

No passado remédio era ruim, não tinha sabor cereja, morango ou tutti frutti para ficar gostoso e facilitar a vida. A criança que ficava doente tinha que encarar remédio ruim. Ninguém precisava explicar muitas vezes que excessos de doces seriam consertados com uma colher bem amarga. Na verdade não haviam excessos... nem de doces, nem de fast food, nem de programas de tv, nem de brinquedos. Não havia quase opção e todos eram felizes com o que havia. Naquela época mertiolate doía, e muito. E apesar de preferir ficar com o joelho ralado a ter que encarar o ardor jamais nos foi dada opção. A vida da criança não era facilitada. E desde de pequenos aprendemos a encarar a dor e o gosto ruim de um remédio amargo. Aprendemos a esperar 12 meses pelo brinquedo que queríamos (e não surgiam 5000 outros brinquedos que queríamos muito nesse meio tempo) e ir no cinema, Mc Donalds ou comer uma pizza em ocasiões muito especiais. Esperávamos por esses momentos e o revivíamos mil vezes depois, como recordações ultra especiais. Nossos pais não brincavam com a gente, ok, talvez eventualmente o pai jogasse bola com os filhos e a mãe costurasse roupas para as bonecas com restos de retalho ou lesse uma historia, mas essa coisa de que os pais são responsáveis por distrair, entreter, fazer feliz a sua criatura a qualquer custo, mesmo que esteja exausto depois de uma jornada semi escrava de um mercado de trabalho ultra competitivo, após dirigir horas em um engarrafamento em qualquer metrópole do mundo. E as crianças se distraiam e brincavam com seus poucos brinquedos, imaginação, irmãos. Criavam fortes no quintal ou clube com lençóis em noites de chuva. E criavam regras e novas brincadeiras.

Na escola não era muito diferente, a vida da criança tampouco era facilitada. Não existiam materiais coloridos, internet, música. Cantava-se o Hino Nacional, sentava-se em uma cadeira de madeira desconfortável e se trabalhava. Na hora do recreio sempre foi meio a lei da selva, os mais fortes ganham dos mais fracos, e a única opção que havia era aprender a ser forte. Ao menos não haviam redes sociais para mostrar para todo o mundo seus erros e fracassos ou alardear o popular que alguém podia ser. Você ganhava status pela sua personalidade e não por golpe de marketing.  A escola foi duríssima para algumas crianças, que aprenderam a superar o estigma de looser, Nerd e conquistaram o mundo empregando os populares no futuro. A lição de casa era feita com enciclopédias, a criança era obrigada a escrever, escrever e escrever. E o professor tinha sempre razão

Não havia o conceito de que a criança tinha que ser feliz. Não era uma obrigação ser feliz. As vezes eram outras não. E os pais entendiam isso como parte da vida, porque é parte da vida. Não acordamos felizes todos os dias. Não estamos felizes o dia todo de nenhum dia de nossas vidas. Hoje um dia o pai que não matricula o filho na melhor escola, que não compra o melhor brinquedo que existe, que não pode levar o filho em todas atividades que possam fazer, cujo filho não seja o mais bonito/inteligente/popular, cujo filho tem problemas em adaptar-se aos amigos da escola, a matemáticas, a ser um bom esportista se sente um perdedor, sente-se esmagado por uma culpa devastadora, sente que deveria trabalhar mais, para comprar mais e fazer mais feliz ao filho. Ou sente que deveria trabalhar menos para ter mais tempo para poder dedicar-se, mas como fazer isso e comprar o novo IPAD que é tudo que seu rebento sempre sonhou?

Estamos criando a geração mais imatura, incapaz de lidar com frustrações e infeliz de todos os tempos.  A simples pressão por ser feliz, ter sucesso e ser popular é motivo para infelicitar a qualquer um. Não queremos que nossos filhos sofram com remédios amargos, não queremos que suas feridas doam para cicatrizar, não queremos que tenham menos oportunidades que os demais. Criamos um exército de crianças bem educadas, bem vestidas, que possuem todas as ferramentas necessárias para criar uma nova teoria da relatividade ou a cura da velhice e tudo que eles querem é fugir. Fugir para o mundo virtual, colorido e indolor dos videogames, para a mentira plástica das redes sociais. E quando querem sentir-se vivos se afundam nos excessos...roupas, brinquedos, comida, mais tarde drogas ou sexo. Qualquer coisa que possa atender à necessidade obrigatória de ser feliz.

Somos a primeira geração de pais que tem todas as ferramentas ao alcance do cartão de credito para suprimir toda e qualquer dor e angustia momentânea, somos a primeira geração de pais obrigados a criar seres humanos perfeitos e felizes, carregamos uma culpa infinita e sempre temos a sensação de estarmos falhando em algo. Temos que ensinar nossos filhos que a dor de barriga se cura com remédio gostoso, o ralado sara com antisséptico indolor, mas fracassar tem um sabor amargo que deve ser tragado e evitado através do esforço individual, temos que vê-los falhar e suportar a vontade de pegá-los no colo e dizer que está tudo bem, porque eles são o príncipe/princesa da mamãe e não tem problema se não conseguir. Tem problemas, eles jamais aprenderão a superar o fracasso se não o viverem, eles não serão especiais e maravilhosos ao mundo, só por terem nascido. O coração deles tem que sangrar as vezes e não tem remédio indolor para isso, é parte da vida e ser feliz apesar disso é o que nos torna capazes de viver e criar uma vida que valha a pena.